O erotismo na poética de Marcos Guahyba

O erotismo felínico da

 Linguagem em Marcos Guahyba

“O erotismo é conceder ao corpo

os prestígios do espírito.”
Georges Perros

 

Na poesia de Marco Guahyba, o erotismo não se limita à representação do desejo ou à celebração do corpo. Em Felinidades, o desejo torna-se uma força capaz de transformar a própria linguagem. O corpo, a sensualidade, a metáfora e a palavra estabelecem entre si uma relação de permanente contaminação: o corpo produz linguagem, e a linguagem, por sua vez, erotiza o corpo.

É justamente essa característica que confere ao poema uma dimensão estética particular. Guahyba não constrói simplesmente um discurso sobre o erotismo; ele procura fazer com que o próprio discurso seja atravessado pela experiência erótica.

O título, Felinidades, já anuncia essa perspectiva. A palavra parece fundir a ideia de “felino” à de “feminilidade”, criando uma figura feminina simultaneamente sedutora e predatória. A mulher surge como criatura de “garras”, “faminta”, capaz de avançar sobre o sujeito lírico com a liberdade e a ferocidade de um animal.

Essa representação rompe com a imagem convencional da mulher exclusivamente contemplada pelo poeta. Em Felinidades, ela não é uma presença passiva. É uma força atuante. Deseja, invade, provoca e transforma. Seu corpo não é apenas objeto do olhar masculino: ele se converte em potência desencadeadora da experiência poética.

O corpo como território

Uma das estratégias mais marcantes do poema consiste em transformar o corpo em paisagem.

A mulher navega pelas “encostas” do sujeito lírico. Posteriormente surgem “picos”, “terremoto”, “selva”, “quilha”, “naus” e “borrasca”. O vocabulário desloca continuamente a experiência corporal para os domínios da geografia, da navegação e da natureza.

O corpo torna-se território.

A imagem da navegação é particularmente importante porque estabelece uma relação entre desejo e aventura. O encontro amoroso não aparece como experiência estática, mas como travessia. Há movimento, risco, descoberta e tempestade.

O “terremoto” presente no poema radicaliza essa concepção. O prazer é representado como abalo. O encontro entre os corpos produz uma ruptura da estabilidade anterior, como se o desejo tivesse força suficiente para modificar a paisagem interior dos amantes.

Nesse sentido, o erotismo de Guayba possui uma dimensão quase geológica: o corpo desejado é capaz de provocar um deslocamento das estruturas do próprio sujeito.

Quando a língua se torna literatura

O momento talvez mais significativo do poema ocorre quando o erotismo corporal se encontra diretamente com a criação literária.

A expressão “minha / Língua / Literária” é construída sobre uma ambiguidade fundamental. A língua é simultaneamente órgão do corpo e instrumento da linguagem. O poeta aproveita essa duplicidade para aproximar beijo e literatura, corpo e palavra, desejo e criação.

A língua do poeta é uma língua literária porque produz metáforas. Entretanto, diante da experiência erótica, ela se contorce e se transforma. A mulher, portanto, não é somente objeto da poesia: ela é capaz de modificar o próprio instrumento poético. É nesse ponto que Felinidades ultrapassa o erotismo convencional. O poema passa a refletir sobre sua própria natureza. O desejo transforma-se em procedimento de escrita.

As “metáforas abusadas” sugerem uma linguagem que deliberadamente ultrapassa limites. O adjetivo “abusadas” pode ser compreendido menos como violência e mais como transgressão dos limites convencionais da expressão. A metáfora deixa de ser mero ornamento e passa a funcionar como território de liberdade.

O erotismo como ruptura dos eufemismos

Outro núcleo fundamental está na imagem da “pele” dos “eufemismos”.

O eufemismo normalmente funciona como uma camada de proteção da linguagem: substitui ou suaviza aquilo que se considera excessivamente direto. Guayba, porém, imagina essa camada como uma pele que pode ser cortada. A mordida feminina rompe essa proteção. O resultado é uma poética do desvelamento. O erotismo aparece como força que retira as máscaras da linguagem e permite que o desejo se manifeste sem a necessidade de enquadramentos rígidos.

A expressão “sem preconceitos / nem esquadros” reforça essa ideia. O “esquadro” sugere medida, forma, enquadramento e regularidade. O desejo, entretanto, recusa essas linhas previamente estabelecidas. O erotismo é apresentado como aquilo que escapa à geometria. O dicionário também pode ser lascivo. A quinta estrofe aprofunda ainda mais a relação entre corpo e linguagem.

A imagem da “vulva / em ebulição” aparece associada às “artimanhas / dos dicionários / lascivos”. O procedimento é extremamente significativo: um objeto tradicionalmente associado à organização racional da língua — o dicionário — recebe uma qualidade corporal e desejante. A palavra deixa de ser neutra. O léxico torna-se erótico.

É como se Guayba sugerisse que determinadas experiências não existem plenamente enquanto não encontram uma linguagem capaz de expressá-las. O desejo exige palavras, mas, ao mesmo tempo, altera o significado dessas palavras.

O dicionário, nesse contexto, deixa de ser apenas repertório de significados e transforma-se em território de possibilidades sensuais.

A mulher como força criadora

Há, portanto, uma inversão importante na relação tradicional entre poeta e musa. A musa clássica costuma inspirar o poeta porque é contemplada por ele. Em Felinidades, entretanto, a mulher parece ir muito além da inspiração: ela interfere diretamente na linguagem do sujeito lírico.

Ela possui garras, boca, lábios, mordidas e desejo; mas possui também uma espécie de poder sobre a própria capacidade do poeta de escrever. Ela faz a língua literária se contorcer. Essa imagem permite compreender a mulher do poema como uma verdadeira força poética.

O erotismo, nesse sentido, não é simplesmente um tema. É o mecanismo que movimenta a criação. A tempestade como culminância do desejo.

Na parte final, o poema retoma o imaginário marítimo e leva sua metáfora ao extremo. A “selva” dos “romances / corsários” conduz às “naus” e à “borrasca”. A experiência amorosa transforma-se definitivamente em viagem. Os amantes são navegadores de uma região desconhecida.

A “borrasca” funciona como culminância simbólica de todo o poema. Se o terremoto representa o abalo da terra, a tempestade representa o abalo do mar. Terra e água são mobilizadas para representar a intensidade do desejo.

O erotismo de Guayba, portanto, é essencialmente dinâmico. Ele não permanece imóvel diante do corpo: movimenta-se, navega, provoca terremotos e atravessa tempestades.

Uma poética do desejo

Felinidades pode ser compreendido, finalmente, como um poema em que o erotismo e a literatura deixam de constituir campos separados. O percurso é bastante claro:

corpo → desejo → metáfora → linguagem → transgressão.

O corpo desperta o desejo; o desejo produz imagens; as imagens transformam-se em metáforas; as metáforas interferem na linguagem; e a linguagem, libertada dos “esquadros”, retorna ao corpo. É um movimento circular. Por isso, talvez a melhor definição para o procedimento de Marco Guayba seja a de um erotismo felínico da linguagem. Felínico porque o desejo possui garras, instinto, ferocidade e movimento predatório.

Da linguagem porque o verdadeiro campo de batalha do poema não é apenas o corpo: é a palavra.

Guayba erotiza os substantivos, desloca os verbos, sexualiza o vocabulário marítimo, transforma o dicionário em território lascivo e faz da metáfora uma extensão do corpo.

Em Felinidades, escrever é também desejar. E desejar é, inevitavelmente, procurar uma linguagem capaz de suportar a intensidade daquilo que o corpo experimenta. Nesse sentido, o poema não apenas fala sobre o erotismo: ele transforma o erotismo em método de criação poética.

Cícero Felipe

Cícero Felipe

Poeta, escritor, ativista cultural, espiritualista.

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