As Marias bonitas de Michelle Bianchi

Existem mulheres que cabem na história. Outras precisam da poesia para revelar tudo aquilo que a história não conseguiu dizer sobre elas.

É nessa perspectiva que Michelle Bianchi encontra o arquétipo de Maria Bonita.

A Maria Bonita que emerge de seus versos não se reduz à personagem histórica, tampouco pretende reconstruir o cangaço. Michelle apropria-se de uma figura carregada de força e a transforma em arquétipo de uma existência que não aceita ser diminuída pelas convenções da matéria.

Por isso, são Marias Bonitas. No plural.

Existe a sertaneja, a guerreira, a ancestral, a espiritual, a mulher que dança para a lua e aquela que compreende que determinadas riquezas não podem ser adquiridas com dinheiro. Todas, porém, nascem de uma mesma recusa: a de viver uma existência superficial.

“Quisera eu ter tudo e mais um pouco

Isso seria o meu sufoco.”

O paradoxo inaugura o pensamento do poema. Aquilo que normalmente seria entendido como conquista aparece como possibilidade de aprisionamento. Ter tudo pode ser justamente uma maneira sofisticada de perder-se de si mesmo.

Michelle não condena simplesmente o desejo de possuir. O que seus versos questionam é a inversão de valores que faz o indivíduo acreditar que a quantidade de coisas que possui determina a dimensão daquilo que é.

É nesse ponto que o Sertão entra no poema.

Não como cenário, mas como filosofia. Um território de dureza onde a existência aprende a distinguir necessidade de excesso:

“Faço do chão, a minha cama

Da pedra, o meu travesseiro

Do céu, o meu teto.”

Há uma ideia poderosa nesses versos: a precariedade material não precisa significar pobreza de espírito. Quando a dignidade não depende daquilo que se possui, até a escassez pode adquirir outra dimensão.

A personagem não precisa que o mundo seja confortável para continuar sendo inteira.

Mas essa inteireza não significa passividade. Diante do “poderio dos homens”, surge o “rugido feroz”. Michelle constrói uma figura feminina que pode contemplar sem ser passiva e pode ser sensível sem ser frágil.

Essa mulher carrega duas forças aparentemente opostas: a contemplação e o enfrentamento.

Quando a noite chega, a guerreira se transforma em dançarina:

“Amenizo a minha dor

Ao dançar para a lua

Com o manto sagrado das estrelas.”

A dor não desaparece. É transfigurada.

Talvez esteja aí uma das dimensões mais belas do poema: a poesia não promete uma existência sem sofrimento; oferece outra maneira de atravessá-lo,.uma resiliência. Dançar torna-se uma forma de não permitir que a dor tenha a palavra final.

A natureza, então, deixa de ser paisagem e passa a participar da experiência interior. Lua, estrelas e céu assumem uma dimensão ritualística, quase sagrada.

Nesse momento é que surgem os ancestrais:

“Ancestrais a postos, atrás de mim

São minha guarda de Anjos.”

Essa imagem amplia o poema para além da individualidade. A personagem carrega uma memória anterior a si mesma. A ancestralidade pode ser sangue, cultura, experiência, espiritualidade ou simplesmente a força daqueles que vieram antes e continuam presentes naquilo que somos.

Ela está só, mas não está sozinha.

Aqui chegamos ao ponto que a Maria Bonita de Michelle ultrapassa a referência histórica. Ela passa a representar qualquer existência que precise encontrar dentro de si — e em sua memória — forças que o mundo exterior não oferece.

Por isso, sua verdadeira riqueza não é material:

“Fidelidade ao Alto, não se compra com matéria.”

O “Alto” talvez seja uma das expressões mais densas do poema. Não precisa ser compreendido apenas como uma referência religiosa. Pode representar uma dimensão superior da existência: aquilo que orienta, transcende e dá sentido ao indivíduo para além daquilo que pode ser comprado, exibido ou acumulado.

Ser fiel ao Alto, nesse sentido, é permanecer fiel a um princípio que está acima da conveniência.

O verso funciona, portanto, como uma espécie de princípio ético e espiritual do poema. Existem valores que não estão à venda. A fidelidade aos próprios princípios não pode ser adquirida por dinheiro, prestígio ou aparência.

Michelle desloca, assim, a ideia de riqueza do território econômico para o moral e espiritual.

Pobre não é necessariamente quem possui pouco. Pode ser quem possui muito e nada conseguiu transformar em grandeza interior.

E é nesse deslocamento que surgem as suas Marias Bonitas.

Elas não precisam carregar armas. Algumas carregam memórias; outras, dores; outras, sonhos. Há aquelas que atravessam o mundo sustentadas apenas pela própria dignidade.

A beleza, nesse universo, também muda de lugar.

Não está no que o espelho devolve, mas naquilo que a alma consegue preservar.

Encontramos, portanto, seja justamente a força maior do poema de Michelle Bianchi: sua Maria Bonita não é uma personagem aprisionada no passado. É uma imagem que atravessa o tempo para falar de uma mulher que se recusa a transformar a própria existência em mercadoria.

Ela conhece a dureza do chão sem perder o olhar para o infinito. Conhece a dor sem permitir que ela a defina. Conhece a matéria sem se tornar propriedade dela.

No fundo, As Marias Bonitas de Michelle Bianchi é uma mensagem sobre a forma particular de liberdade: a liberdade de permanecer inteira quando o mundo insiste em nos medir pelo que temos, pelo que aparentamos e pelo que podemos oferecer em troca.

E talvez seja essa a verdadeira beleza que Michelle encontra em suas Marias: não a beleza que pede admiração, mas aquela que nasce da permanência; não a força que domina, mas aquela que atravessa a adversidade sem negociar a própria essência.

As Marias Bonitas de Michelle não são simplesmente muitas mulheres. São muitas formas de uma mesma mulher existir sem abrir mão de sua inteireza.

Quando a matéria perde o brilho, quando a aparência já não sustenta ninguém e quando aquilo que pode ser comprado deixa de ter valor, permanece o que nunca esteve à venda: a dignidade de ser quem se é.

E é nesse lugar — entre o chão do Sertão e a imensidão do céu — que Maria Bonita deixa de ser apenas nome, personagem ou memória.

Torna-se uma ideia.

A ideia de que existe uma riqueza que nenhuma pobreza consegue destruir: a liberdade de não pertencer àquilo que se possui, mas permanecer pertencente a si mesma. E como dizia Nietzsche “nunca é alto o preço a se pagar para pertencer a si mesmo”. Salve a Maria bonita Michelle Bianchi!

Cícero Felipe

Poeta, escritor, ativista cultural, espiritualista.

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